Acordaste com um sonho quase na mão e, quando chegaste ao telemóvel, ele já tinha desaparecido. Esta é a frustração mais comum do mundo, e é exatamente aquilo sobre o qual as mais antigas tradições oníricas pensaram durante séculos.
Freud diria que não o perdeste realmente. Defendia que os sonhos são a realização disfarçada de desejos que a tua mente acordada se recusa a admitir, e que o esquecimento faz parte do disfarce. O sonho esbate-se porque está a cumprir a sua função: manter o desejo oculto. Mas Freud também acreditava que se podia trazê-lo de volta, com paciência e o tipo certo de atenção.
As outras duas grandes tradições, a grega e a islâmica, tinham uma perspetiva diferente. Para elas, o sonho não era tanto um segredo a decifrar, mas uma mensagem a receber. Esquecer era um problema prático, não psicológico. E tinham respostas práticas.
Eis o que as três têm a dizer sobre recordar e o que podes realmente fazer antes do amanhecer.
Porque é que os sonhos se esfumam ao acordar
A explicação de Freud é a mais famosa. Em A Interpretação dos Sonhos (1900) descreveu um censor que se situa entre o inconsciente e o consciente. O sonho é o conteúdo manifesto, a história que recordas, mas o conteúdo latente, o desejo subjacente, é o que o censor esconde. Quando acordas, o censor retoma o seu trabalho e o conteúdo manifesto é desmantelado tão rapidamente quanto foi construído.
Não estava errado quanto à experiência. Um sonho é frágil ao acordar, mais parecido com uma bolha de sabão do que com uma fotografia. Mas a sua razão para a fragilidade, a de que é ativamente suprimido, é apenas uma possibilidade. As outras duas tradições tinham explicações mais simples.
Artemidoro de Daldis, o autor grego do século II da Oneirocritica, não tratava o esquecimento como um mistério. Era um pesquisador de campo, mais próximo de um antropólogo do que de um místico, e pensava que um sonho tinha de ser captado no seu contexto próprio: quem és, o que fazes, o que se passa na tua vida. Um sonho esquecido é simplesmente um sonho que perdeu o contexto. Nunca teve um significado fixo para começar, por isso não tem nada que o ancore.
A tradição associada a Ibn Sirin, o jurista de Basra do século VII sob cujo nome viaja a arte islâmica do ta'bir, tinha uma visão mais reverente. Os sonhos eram uma forma de inspiração, e perdê-los era perder algo como uma carta de um amigo. Mas a tradição nunca fingiu que todos os sonhos tinham igual peso, e era honesta ao dizer que a interpretação era analogia, não certeza. Alguns sonhos simplesmente não valiam a pena guardar.
O que realmente ajuda: três abordagens que concordam
As três tradições, apesar das diferenças, convergem num ponto: o sonho tem de ser apanhado cedo, antes que o mundo desperto lhe ponha as mãos em cima.
A jogada freudiana: associação livre
O método de Freud era ficar deitado e deixar a mente vaguear em torno do fragmento do sonho que restava. Chamou a isto associação livre, e é o oposto de pegar no telemóvel. O telemóvel puxa-te para o presente. A associação livre deixa o fragmento puxar-te para trás.
Se te lembras apenas de uma cor, ou de um sentimento, ou de uma única imagem, começa aí. Pergunta a ti próprio com que se liga, sem julgar a resposta. Freud acreditava que o conteúdo latente viria à superfície através dessas associações, como um peixe que sobe ao anzol.
A instrução prática é simples: não te mexas, não fales, não comeces o teu dia. Deixa a mente divagar por alguns minutos antes de fazeres qualquer outra coisa.
A jogada de Artemidoro: conhece o teu sonhador
Artemidoro insistia que o mesmo sonho significa coisas diferentes para um marinheiro e para um magistrado. O seu método começa pelo sonhador, não pelo sonho. Portanto, antes de tentares recordar o sonho em si, recorda quem és nele.
Eras a mesma pessoa, ou outra? Estavas a fazer algo que nunca farias acordado? Artemidoro diria que o sonho é sobre a tua situação, o teu ofício, a tua saúde. Um sonho de queda significa uma coisa para um soldado e outra para um carpinteiro.
Isto é uma técnica de memória disfarçada de interpretação. Ao perguntares o que o sonho diz sobre a tua vida, dás-lhe um contexto a que se agarrar. O contexto é o que falta a um sonho que esbate.
A jogada de Ibn Sirin: trata-o como um dom
A tradição associada a Ibn Sirin era explícita ao dizer que Deus pode enviar sonhos, mas que a interpretação é apenas analogia. O papel do sonhador é receber o sonho com seriedade e respeito. Esse respeito tem um lado prático: é muito mais provável recordar algo que acreditamos importar.
Isto não é uma afirmação mística. É uma afirmação psicológica. Quando acordas a pensar "isso foi interessante", já o estás a deixar ir. Quando acordas a pensar "isso poderá ser dirigido a mim", estás a segurá-lo.
A tradição também aconselhava paciência. Nem todo o sonho merece o esforço. Alguns vêm do eu, como diziam os contemporâneos de Ibn Sirin, e outros vêm de Deus. Distinguir os dois requer experiência e, muitas vezes, a ajuda de alguém com formação em ta'bir. O ponto é levar o sonho a sério sem levar todos os sonhos à letra.
O hábito que funciona para todos
As três tradições assumem que voltarás a adormecer ou que tens uma forma de escrever o sonho. Mas a ferramenta mais eficaz é a que sobreviveu a todos os séculos e a todas as tradições: um caderno ao lado da cama.
Freud tinha um caderno. Artemidoro contava com os relatos dos seus pacientes, o que significa que eles tinham de recordar os sonhos, e ele treinava-os para isso. A tradição de Ibn Sirin abriu espaço para diários de sonhos numa cultura onde os sonhos eram levados a sério.
Escreve antes de falar. Escreve no escuro, se isso te impedir de acordar por completo. Escreve mal, em fragmentos, sem editar. O ato de escrever não é apenas um registo; é uma forma de dizer ao sonho que ele importa para ti. E um sonho que importa é um sonho que fica.
Quando recordar se torna o problema
Há um limite para o quanto deves querer recordar. Se um sonho é angustiante, ou se tens pesadelos noite após noite, o objetivo não é segurar, mas soltar. As tradições também são úteis aqui.
Artemidoro diria que o sonho está a dizer algo sobre a tua vida que precisa de atenção. Freud chamar-lhe-ia um sintoma, e o tratamento não é recordá-lo melhor, mas compreender porque está lá. A tradição de Ibn Sirin é moralmente atenta: distinguiria entre um sonho que é um aviso e um que é simplesmente um distúrbio.
Se estás neste território, um profissional é o endereço certo. Um terapeuta, um conselheiro, ou um diretor espiritual, se essa for a tua tradição. Recordar não é um fim em si. É um meio para a questão mais ampla, que é o que o sonho tem a dizer.
O teu sonho, esta manhã
O que quer que tenhas tido esta manhã, não está perdido para sempre. O fragmento que ainda tens, o traço de um sentimento, a imagem ténue, é suficiente para começar.
Fica deitado por um momento. Deixa a mente divagar. Pergunta a que se liga o fragmento. Pergunta o que diz sobre a tua vida agora. Escreve-o antes de dizeres uma palavra a outra pessoa.
O sonho cooperará. Cooperam sempre, se lhes deres a atenção que pediam desde o início.
O sonho não é uma mensagem de outro lugar. É uma mensagem de ti, escrita numa língua que podes aprender a ler.
Isso não é uma citação de Artemidoro ou de Freud. É a conclusão deste artigo, e é verdade nas três tradições: o sonho é teu, e recordá-lo é uma forma de prestares atenção a ti próprio.