Acordou com um sonho ainda preso a si e quer saber o que significava. Eis a resposta honesta: três tradições sérias criaram cada uma uma forma de ler sonhos, e não estão de acordo. O grego Artemidoro leu o sonho como um sinal prático que depende de quem você é. A tradição islâmica associada a Ibn Sirin leu-o como uma analogia moral e condicional. Freud leu-o como um desejo disfarçado. Cada lente dar-lhe-á uma leitura diferente da mesma noite.
Artemidoro: ler primeiro o sonhador
Artemidoro de Daldis, escrevendo no século II no Império Romano, produziu o manual de sonhos mais completo que sobreviveu da antiguidade. A sua Oneirocritica está mais próxima da investigação de campo do que do misticismo. Distinguiu entre o oneiros, um sonho que contém significado sobre o que virá, e o enhypnion, um sonho que meramente reflete o estado presente do sonhador. Sonhar com comida quando se tem fome é um enhypnion. Não diz nada.
O seu método era situacional. O mesmo símbolo significava coisas diferentes para pessoas diferentes. Um navio num sonho, sustentava ele, significava uma coisa para um mercador, cuja subsistência dependia do mar, outra para um marinheiro, e outra para alguém prestes a fazer uma viagem. Para interpretar corretamente o seu sonho, Artemidoro quereria saber o seu ofício, a sua saúde, os seus hábitos, as suas circunstâncias. Não estava interessado em símbolos universais. Estava interessado em si. O sonho de perder dentes, por exemplo, seria lido de acordo com o que os dentes significavam na sua vida: a perda de algo que o ajuda a morder, a falar ou a parecer apresentável.
Essa é a primeira lente. É pragmática, mas exige detalhe. Se contasse a Artemidoro apenas que sonhou com água, ele perguntaria: que tipo de água, e quem é você? Para um agricultor, a água pode prometer uma boa colheita. Para um marinheiro, pode prometer uma passagem segura ou uma tempestade. O significado não está na água. Está na relação entre a água e o sonhador.
Ibn Sirin: interpretação como analogia, não certeza
Ibn Sirin, que morreu em Basra em 728, viveu sob os omíadas. Era um tabi'i, da geração posterior aos companheiros do Profeta, lembrado como jurista e tradicionalista. A tradição do ta'bir associada ao seu nome é cuidadosa e condicional. Sustenta que a interpretação é analogia, não conhecimento do invisível. Muitas obras que circulam sob o seu nome foram compiladas mais tarde, por isso é mais seguro dizer "a tradição associada a Ibn Sirin" ao lidar com leituras específicas.
Nessa tradição, a água aparece frequentemente como sinal de misericórdia ou bênção, mas nunca de forma absoluta. O mesmo sonho pode ser lido de forma diferente dependendo do estado do sonhador e dos detalhes do sonho. Se um homem pobre sonha com água, pode significar alívio da dificuldade. Se um homem rico sonha com água, pode alertar para perda, porque a água é passageira. A tradição é moralmente atenta: um sonho de roubo, na abordagem de Ibn Sirin, pode ser lido não como um presságio, mas como um sinal de uma carência espiritual que o sonhador deve resolver. Não é preditivo. É indicativo, apontando o sonhador para a reflexão em vez de prever eventos.
Onde Artemidoro pergunta pelo seu ofício, a tradição islâmica pergunta pelo seu caráter. Quer saber o que fez no sonho e o que o sonho diz sobre a sua relação com Deus e com os outros. O sonho não é uma mensagem do futuro. É um espelho colocado diante do eu, e a interpretação é uma espécie de raciocínio moral. A tradição é explícita: a leitura do intérprete é uma conjectura, sujeita a erro, nunca uma pretensão de conhecer o invisível.
Essa é a segunda lente. É mais interior do que a de Artemidoro. Trata o sonho como um sinal a ser compreendido dentro de um quadro moral, não como uma predição a ser seguida.
Freud: o desejo disfarçado
Freud publicou A Interpretação dos Sonhos em 1900. A sua tese central é que um sonho é uma realização disfarçada de um desejo. O conteúdo manifesto, aquilo de que se lembra, esconde um conteúdo latente, o desejo subjacente. A maquinaria que transforma o latente em manifesto é a condensação, em que vários pensamentos são comprimidos numa única imagem, e o deslocamento, em que o peso emocional se transfere para algo trivial.
O método de Freud é retrospectivo. Não lhe diz o que vai acontecer. Diz-lhe o que já está em si, muitas vezes enterrado. Um sonho de perder dentes, para ele, poderia ser um desejo disfarçado relacionado com sexualidade ou poder, embora ele próprio evitasse um dicionário fixo. Alertou contra o hábito popular de tratar cada objeto como um símbolo de outra coisa. Não se pode ler um símbolo onírico sem conhecer as associações do sonhador. Nisso, está mais próximo de Artemidoro do que de um dicionário de sonhos.
Freud discutiu Artemidoro no seu levantamento inicial dos escritores anteriores, reconhecendo a tradição antiga mas insistindo que a sua própria abordagem era mais rigorosa. O que acrescentou foi a ideia de disfarce: o sonho não é uma imagem transparente, mas um enigma que a mente colocou a si mesma. O desejo é frequentemente inaceitável, por isso aparece com roupas estranhas. A leitura de Freud é interpretativa, exigindo as associações livres do sonhador para a desbloquear.
Essa é a terceira lente. É psicológica e histórica, e diz respeito ao presente e ao passado do sonhador, não ao futuro. Quando é caricaturado, reduzem-no a "cada objeto é um símbolo sexual". Quando é lido, é muito mais cuidadoso do que isso. O seu método exige paciência e introspeção.
Onde divergem, e porque isso importa
As três tradições discordam sobre a natureza básica do sonho. Artemidoro via o sonho como portador de significado sobre o que virá, pelo menos no caso do oneiros. A tradição de Ibn Sirin via-o como uma analogia a ser interpretada com cuidado moral, sem reivindicação de certeza. Freud via-o como um desejo disfarçado, olhando para dentro e para trás. Não são posições compatíveis. Não podem ser fundidas numa única resposta arrumada.
Esse é o ponto. Nenhuma tradição detém a verdade sobre os sonhos. Cada uma oferece uma forma diferente de fazer perguntas. Artemidoro pergunta: qual é a sua situação e como este sonho se relaciona com ela? Ibn Sirin pergunta: o que diz este sonho sobre o seu caráter e o seu caminho? Freud pergunta: que desejo esconde de si mesmo?
Pode aplicar as três ao mesmo sonho. Pode descobrir que uma lhe fala mais claramente do que as outras. Pode descobrir que cada uma ilumina uma camada diferente.
O sonho não é uma mensagem com um significado fixo. É um texto, e cada leitura é uma escolha.
O desacordo não é um fracasso. É um lembrete de que os sonhos não são simples. São suficientemente ricos para suportar o peso de três tradições antigas, cada uma das quais encontrou algo que valia a pena dizer.
O seu sonho, amanhã de manhã
Acordou com um sonho específico. Tinha uma cor, um lugar, uma pessoa, um sentimento. Essa especificidade é o que Artemidoro teria querido ouvir. O detalhe importa. O que estava a fazer? Quem estava lá? Como se sentiu? Faça essas perguntas primeiro, antes de qualquer interpretação.
O significado não está numa entrada de dicionário. Está na relação entre o sonho e a sua vida. Se sonhou com água, o que significa água para si? Se sonhou que caía, caía em direção a algo ou afastava-se de algo? As respostas não são dadas. São encontradas, pelo perguntar.
Amanhã de manhã, quando acordar com outro sonho, terá três formas de perguntar. Isso é mais do que uma única resposta. É uma prática.