Sonhar que estamos a ser perseguidos: Freud, Artemidoro e Ibn Sirin

O que significa sonhar que estamos a ser perseguidos? Três tradições antigas oferecem leituras muito diferentes – comece por Freud.

3 de setembro de 2026 6 min de leitura symbol

Se acordou esta manhã de um sonho em que estava a ser perseguido, a primeira coisa que deve saber é que está em boa companhia. É um dos temas oníricos mais comuns de que as pessoas dão conta. E através de três grandes tradições de interpretação dos sonhos, tem suscitado explicações notavelmente diferentes.

Comecemos por Freud, porque é o que a maioria das pessoas recorda vagamente. Em A Interpretação dos Sonhos (1900), defendia que os sonhos são a realização disfarçada de desejos. O conteúdo manifesto – aquilo de que se recorda, a perseguição em si – esconde um conteúdo latente, um desejo demasiado difícil ou vergonhoso para ser encarado diretamente. Ser perseguido, no seu quadro conceptual, é um disfarce clássico. O perseguidor pode representar um impulso reprimido, um desejo que não admitiu, ou um aspeto de si mesmo que tentou deixar para trás. O sonho não lhe diz que algo de mau está para vir; diz-lhe que algo que já está dentro de si exige atenção.

O método de Freud é interpretativo e virado para o passado. Ele lê o sonho como uma mensagem sobre a sua vida interior, não como uma previsão. O medo que sente no sonho é real, mas aquilo para que aponta não é um acontecimento futuro. Aponta para um conflito que já está presente, geralmente um que envolve desejos que julgou inaceitáveis.

Agora, Artemidoro. Foi um escritor grego do século II d.C., ativo no Império Romano, e a sua Oneirocritica é o manual de sonhos mais completo que sobreviveu da antiguidade. Onde Freud via uma maquinaria universal de disfarce, Artemidoro via um puzzle situacional. O significado de um símbolo, insistia, depende do ofício, do estatuto, da saúde e das circunstâncias do sonhador. O mesmo sonho significa coisas diferentes para um marinheiro e para um magistrado.

Assim, quanto a ser perseguido, Artemidoro não lhe daria uma resposta única. Perguntaria quem o persegue. Um credor a perseguir um devedor pode significar algo bastante concreto; um inimigo a perseguir um soldado pode falar dos seus perigos presentes. Ele distinguia entre o oneiros, um sonho com significado sobre o que está para vir, e o enhypnion, um sonho que meramente reflete o estado atual do sonhador. Se sonha que está a ser perseguido enquanto está realmente doente, isso pode ser um enhypnion, um reflexo do sofrimento do seu corpo, não uma profecia. Artemidoro estava mais próximo de um investigador de campo do que de um místico: recolhia sonhos das pessoas à sua volta e tentava identificar a que, nas suas vidas particulares, correspondiam as imagens.

Terceiro, Ibn Sirin. Nasceu em Basra e morreu em 728 d.C., sob os Omíadas. Era um tabi'i, da geração posterior aos companheiros do Profeta, e é recordado sobretudo como jurista e tradicionalista. A tradição do ta'bir associada ao seu nome é cuidadosa, condicional e moralmente atenta. Sustenta que a interpretação é analogia, não conhecimento do invisível. Este é um ponto crucial: o intérprete não reivindica certeza sobre o futuro. Oferece uma leitura baseada na semelhança e no contexto, e deixa espaço para a dúvida.

Nesta tradição, ser perseguido é frequentemente lido como um encontro com algo de que o sonhador foge na vida desperta – medo, culpa ou uma falha moral. Mas a leitura depende fortemente dos detalhes. Quem persegue? Qual é o caráter do próprio sonhador? A abordagem de Ibn Sirin examinaria o estado de espírito do sonhador e a natureza do perseguidor. Tal como em Artemidoro, não há uma resposta única para todos. E porque a tradição é moralmente atenta, a leitura pode encorajar o sonhador a examinar a sua consciência, a perguntar-se do que foge na sua própria conduta.

Onde os três discordam genuinamente, diga-o. A discordância é mais interessante do que qualquer síntese forçada. Freud vê um desejo interno disfarçado. Artemidoro vê uma pista específica da situação, possivelmente sobre circunstâncias presentes, possivelmente sobre o que está para vir. Ibn Sirin vê uma oportunidade para reflexão moral, uma analogia a traçar, não um decreto.

O sonho não lhe diz que algo de mau está para vir; diz-lhe que algo que já está dentro de si exige atenção.

Essa é a posição de Freud. Artemidoro aceitaria que alguns sonhos são meramente reflexivos, mas não limitaria o ser perseguido ao reino interno. Um sonho poderia também ser um aviso sobre ameaças externas, dependendo da vida do sonhador. Ibn Sirin assentiria com a dimensão moral, mas insistiria que o resultado pertence a Deus, e que a interpretação é um esforço humano, falível.

O que deve retirar disto, de pé no balcão da cozinha às sete da manhã? Primeiro, que não há um significado único acordado. O instinto de encontrar uma resposta é natural, mas as três tradições que moldaram o pensamento ocidental sobre os sonhos leem cada uma este tema de forma diferente. Segundo, que os detalhes importam. Quem o perseguia? Estava a correr ou parado? Escapou? Cada uma dessas variações desloca a leitura dentro de cada tradição.

Se o sonho foi avassalador, ou se se repete, ou se está ligado a luto, trauma ou doença, um profissional é o endereço certo para ele. Um intérprete de sonhos, por mais erudito que seja, não substitui um clínico. Mas se o sonho foi simplesmente perturbador, pode segurá-lo como Artemidoro segurava os sonhos dos seus clientes: como um puzzle sobre a sua própria vida, cuja resposta depende de quem você é e do que está a enfrentar.

Pode perguntar-se a si mesmo do que tem fugido ultimamente. Não num sentido cósmico, mas no sentido simples da palavra: o que tem evitado, adiado ou a que tem virado as costas? O sonho pode ser a forma que a sua mente encontra de dizer que algo tem perseguido a sua atenção há algum tempo. Não prevê um desastre. Simplesmente aponta para uma perseguição que já está em curso, na única linguagem que tem.

E se acordou assustado, saiba que o medo faz parte da mensagem. Freud diria que é o disfarce a funcionar, a censura do desejo. Artemidoro notaria que o medo é informação sobre o seu estado atual. Ibn Sirin lembrá-lo-ia que a interpretação não é certeza.

O seu sonho é seu. É você quem o viveu, e é você quem pode pesar estas leituras contra as suas próprias horas de vigília. As tradições não são autoridades sobre a sua noite; são ferramentas que pode pegar e largar. Use-as para olhar mais de perto para o que o sonho pode estar a dizer, e depois siga com o seu dia.


Este artigo faz parte da Mythos, onde exploramos os sonhos através das três grandes tradições de interpretação. Nenhuma leitura única é oferecida como evidência, porque nenhuma o é.

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